Anda complicado não sucumbir à ansiedade, mas uma dose única de LSD pode ajudar. Atenção: trata-se aqui de resultado de teste clínico divulgado em publicação médica respeitada, não de uma recomendação para consumir droga que permanece ilegal —embora a proibição pareça cada vez menos justificável à luz da ciência.
A pesquisa saiu em edição eletrônica do Jama, periódico da Associação Médica Americana, com o título “Tratamento Único com MM120 (Lisergida) em Transtorno de Ansiedade Generalizada – Um Teste Clínico Aleatorizado”. MM120 é D-tartarato de lisergida, uma variante do ácido patenteada pela empresa MindMed, dos EUA.
O TAG (transtorno de ansiedade generalizada) pode afetar até 10% da população, sendo mais comum do que a depressão. O TAG atormenta sobretudo jovens até 20 anos, idade a partir da qual a depressão se mostra mais prevalente. O uso de celulares e redes sociais por adolescentes estaria por trás dessa diferença, e o Brasil figura como um dos países mais ansiosos.
O estudo no Jama, um ensaio clínico de fase 2, recrutou 198 adultos com esse diagnóstico em 22 centros dos EUA. Os voluntários foram divididos em um grupo de placebo e quatro de dosagem em microgramas (25 mcg, 50 mcg, 100 mcg e 200 mcg), acompanhados por três meses.
Os melhores resultados foram obtidos com as doses únicas 100 mcg e 200 mcg: quase metade dos pacientes em remissão, contra apenas um quinto entre os do grupo de placebo. Concluiu-se que a dose de 100 mcg é ideal, pois a de 200 mcg não mostrou diferença significativa e desencadeou efeitos adversos mais intensos, como perturbações visuais, náusea e dor de cabeça.
O benefício observado é comparável ao de medicamentos benzodiazepínicos. Mas com uma diferença notável: o efeito terapêutico se sustentou por 12 semanas, e não por algumas horas apenas.
O estudo liderado pelo Hospital Geral de Massachusetts (MGH) chama atenção, primeiro, por usar LSD. É um fármaco pouco frequente na renascença psicodélica, em que pesquisadores clínicos têm dado preferência a compostos menos estigmatizados como psilocibina (cogumelos “mágicos”), DMT (ayahuasca, jurema-preta) e MDMA (ecstasy).
Depois, porque reforça característica comum a outros ensaios clínicos com psicodélicos, seu potencial para limitar-se a um uso intermitente, com dosagens separadas por semanas ou meses. Tudo indica que, se regulamentados como medicamento, não o serão para uso contínuo.
Por fim, o protocolo não envolveu psicoterapia, que outros estudos vinham propondo como componente indissociável dos tratamentos —ainda experimentais— com psicodélicos. O acompanhamento por terapeutas em sessões posteriores de integração seria fundamental, defende-se, para que pacientes possam fazer sentido dos conteúdos surgidos nas intensas experiências subjetivas sob efeito da substância.
Foi o caso de outro teste clínico recente que investigou o tratamento de depressão pós-parto com a droga patenteada RE104. Trata-se de um composto da empresa canadense Reunion Neuroscience aparentado com o psicodélico psilocibina.
Além de duas sessões preparatórias, as 48 voluntárias do Canadá e dos EUA participaram de duas sessões de integração com psicoterapeutas após receber uma aplicação única do fármaco em injeção subcutânea, em doses variáveis. O estudo saiu publicado no periódico Journal of Clinical Psychopharmacology.
“Quase 70% dos participantes estavam em remissão 28 dias após receberem RE104”, afirmou ao boletim The Microdose Camille Hoffman, da Universidade do Colorado, uma das instituições envolvidas. “Fiquei impressionada com esses resultados, realmente não vi nenhum outro método que tenha levado a depressão pós-parto à remissão tão rapidamente.”
Após a rejeição pela FDA (agência de fármacos dos EUA) de MDMA para estresse pós-traumático, há pouco mais de um ano, essa questão permanece em aberto: a associação com psicoterapia será ou não necessária se e quando as terapias psicodélicas forem regulamentadas?

