Empreendedora em feira da prefeitura do Rio – Foto: Karolina Garcia/Prefeitura do Rio
O fortalecimento do protagonismo feminino vem se consolidando como uma das forças de transformação social nas periferias do Rio de Janeiro. À frente desse movimento, o Instituto da Providência aposta no empreendedorismo e na cultura popular para promover a autonomia financeira de mulheres em territórios vulneráveis da cidade.
Com mais de seis décadas de atuação no combate à pobreza e promoção da cidadania, a instituição lidera o projeto Mulher Potência Empreendedora, que oferece formação profissional, aceleração de negócios e incentivo financeiro a moradoras da Zona Oeste. A proposta é impulsionar o desenvolvimento de empreendimentos nos setores de gastronomia, moda e beleza, pilares da indústria criativa e da cultura popular brasileira.
Desde o início do programa, em 2022, mais de 1.700 mulheres foram beneficiadas, o que resultou na criação de 684 novos negócios e na concessão de 364 recursos semente para capital de giro. Só em 2025, o projeto estruturou 16 turmas, somando 1.160 horas de formação e 720 horas de mentorias em parceria com o Sebrae. O resultado aparece na prática: oito em cada dez participantes passaram a gerar renda própria por meio dos seus empreendimentos.
“Essa etapa fortalece a autoestima, a autonomia e o protagonismo feminino, gerando impacto real nas comunidades”, destaca Jocilene Julião, gerente de projetos sociais do Instituto da Providência.
A metodologia do projeto, certificada como Tecnologia Social pela Fundação Banco do Brasil, combina o desenvolvimento socioemocional com capacitação técnica e estímulo à geração de renda. Além da formação, o Instituto estruturou a rede Negócio de Mulher, que acompanha mais de 1.200 empreendedoras em fase de aceleração, promovendo trocas de experiências, mentorias e ações voltadas ao fortalecimento de negócios locais.
O incentivo financeiro também é parte essencial do modelo. Em 2025, 161 mulheres receberam recursos semente de R$ 1.500, após participarem de rodadas de pitchs — apresentações rápidas de seus projetos para potenciais apoiadores. O investimento permitiu a compra de insumos e materiais que impulsionaram o crescimento das marcas.
Entre as participantes, muitas são mães e chefes de família. Segundo levantamento de 2024, 80% das beneficiárias sustentam o lar, 79% são negras ou pardas e mais da metade não concluiu o Ensino Médio. Ainda assim, o impacto financeiro foi expressivo: a renda média per capita familiar saltou de R$ 28,91 para R$ 419,94, um aumento de 1.352%. Já a renda média das mulheres passou de R$ 24,48 para R$ 832,07 — crescimento de 3.298%.
O reconhecimento também vem do meio acadêmico. Um estudo do Prof. Dr. Leandro Pongeluppe, PhD pela Universidade da Pensilvânia, publicado na Administrative Science Quarterly, aponta que cada R$ 1 investido nas beneficiárias gera retorno de R$ 2,37 para a economia. A pesquisa, intitulada “Os Efeitos Multifacetados da Mobilidade Socioeconômica”, reforça o papel do empreendedorismo feminino periférico como fator-chave de transformação social no Brasil.
“A valorização da cultura periférica do Rio de Janeiro se consolida pelo fortalecimento das camadas da população que são o berço da criação de uma indústria cultural espontânea. Moda, beleza e gastronomia são setores acessíveis e promissores para quem vive na ponta”, afirma Maria Garibaldi, diretora executiva do Instituto da Providência.
Mais do que um projeto de formação, o Mulher Potência Empreendedora se tornou um modelo de inovação social, unindo conhecimento técnico, apoio emocional e investimento financeiro. Os resultados mostram que quando as mulheres são protagonistas, as comunidades inteiras prosperam — e o Rio ganha novas potências em cada esquina.