Connect with us

Cidade

Emanuel Alencar – O trem atrasou meia hora: ecos de uma metrópole parada no trânsito – Diário do Rio de Janeiro

Published

on

Emanuel Alencar – O trem atrasou meia hora: ecos de uma metrópole parada no trânsito – Diário do Rio de Janeiro

Foto: Reprodução

“Patrão, o trem atrasou / Por isso estou chegando agora / Trago aqui um memorando da Central / O trem atrasou, meia hora / O senhor não tem razão / Pra me mandar embora.”

O refrão do samba O Trem Atrasou, que descreve as agruras cotidianas de um trabalhador que chega atrasado porque o trem parou, ecoa com cruel atualidade. O sucesso composto há 84 anos por Arthur Vilarinho, Estanislau Silva Pinto e Paquito segue descrevendo com precisão o drama da mobilidade no Rio de Janeiro. A metrópole nunca foi tão engessada: o Grande Rio já supera São Paulo em número de pessoas que gastam mais de duas horas no deslocamento casa-trabalho.

Os números do Censo de 2022 trazem más notícias — que, no entanto, não surpreendem o povo fluminense, acostumado a perder boa parte da vida no trânsito. Queimados, Nova Iguaçu e Belford Roxo, cidades da Baixada Fluminense, lideram o ranking nacional de lentidão nos deslocamentos diários de trabalhadores. As mazelas recaem, sobretudo, sobre a população preta e parda.

Um trabalhador que mora na Zona Oeste e atua na Tijuca, no Centro ou na Zona Sul tende, segundo o Censo, a igualar ou superar a marca de duas horas por trajeto — em muitos casos, chegando a quase quatro horas de viagem. O mesmo ocorre com quem vem da Baixada, de São Gonçalo, Itaboraí e outras localidades do Leste Metropolitano. Angustiados e cansados, muitos trabalhadores acabam optando pelo transporte individual, entupindo ainda mais as vias principais — um ciclo que retroalimenta o caos.

Como aponta a urbanista Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), nossas cidades foram estruturadas de forma excludente, empurrando os trabalhadores para longe dos centros e impondo longas jornadas de deslocamento. É evidente que quem passa horas no transporte não consegue estar presente para cuidar dos filhos ou dos idosos — ainda mais em um país que carece de creches, escolas integrais e uma rede pública de cuidadores.

Mesmo quando esses serviços existem, falta tempo para a convivência e a dedicação afetiva. O resultado são crianças e adolescentes criados em redes de apoio frágeis, muitas vezes deixados à própria sorte em contextos de insalubridade, habitação precária, vulnerabilidade e violência.

O planejamento urbano precisa priorizar as pessoas, não o mercado. As desigualdades territoriais — expressas no tempo gasto em transporte e na segregação espacial — são faces concretas da negação do direito à cidade. Não dá mais para aguentar tanta privação de direitos


As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

https://diariodorio.com/wp-content/uploads/2024/03/Tremsupervia.jpg

Fonte: diariodorio.com

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © 2021 Panorama Geral RJ.