Connect with us

Esporte

‘Busca por identidade é essência da minha história’, diz esquiador que trouxe ouro para o Brasil

Published

on

‘Busca por identidade é essência da minha história’, diz esquiador que trouxe ouro para o Brasil

Ler Resumo

Vencedor da medalha de Ouro no Slalom Gigante pelo Brasil nas Olimpíadas de Inverno de 2026, o esquiador Lucas Pinheiro Braathen cresceu imerso em duas culturas. Filho de um norueguês com uma brasileira, o atleta sempre foi influenciado por características de ambos os países e abraça a dupla nacionalidade como bandeira. Após iniciar sua trajetória sob as cores norueguesas, o esportista anunciou uma surpreendente aposentadoria em 2023 devido a conflitos com a federação local. Ele voltaria às pistas um ano depois, competindo pela pátria da mãe. Em entrevista concedida a VEJA, Lucas falou sobre as dificuldades de não se sentir completamente em casa durante a infância, a disputa com a Federação Norueguesa que o fez competir pelo Brasil, a reação do público em ambos os países e a satisfação de vencer do próprio jeito.

Você se sente brasileiro, mesmo tendo crescido na Noruega? Por muitos anos, eu achei muito difícil. Passei a infância tentando encontrar a minha identidade entre duas culturas que são diferentes. Uma coisa bem difícil. Ao crescer, viajando pelo mundo, seguindo meus sonhos, entrando e saindo de várias culturas, eu achei um jeito de achar uma casa fora de casa. E essa medalha representa a diversidade brasileira. O Brasil é um país multicultural, se não fosse por essas diferenças, essa dualidade, eu não acho que iria conseguir trazer esse ouro.

Quais são as principais diferenças de comportamento que você vê entre as duas torcidas? O amor, a vibração e a energia do povo brasileiro são coisas que não existem fora desse país. Eu não comecei esquiando, meu primeiro amor foi o futebol, que jogava com primos, amigos e os vizinhos do bairro da minha família. Foi esse relacionamento que o Brasil tem com o futebol que me deixou apaixonado pelos esportes.

Isso influneciou na decisão de romper com a federação norueguesa?  Eu me sentia dentro de uma caixa nessa confederação. Estava lutando para abrir espaço para essa aceitação de diferenças entre os atletas, porque para mim são elas que representam o valor do esporte. E em 2023 fui o campeão da Copa do Mundo na categoria de Slalom e me tornei o melhor do mundo, mas me senti meio perdido, porque consegui realizar o sonho de outros, mas eu não podia seguir os meus sonhos. O ouro para mim é ganhar um palco para poder falar com pessoas em todos os cantos do mundo. Eu realmente sinto que o meu trabalho verdadeiro começa aí, mas dentro dessa caixa fiz tudo o que eu podia fazer. Eu podia continuar a esquiar dentro desse sistema, e abandona meu propósito verdadeiro, ou podia manter a conexão com o meu propósito, mas sair do esporte. Acabei saindo do esporte,  uma decisão muito difícil.

O que você fez nesse período? Comecei a explorar minhas outras curiosidades, fui para a semana de moda em Copenhagen trabalhar como modelo. Eu estava trabalhando com direção criativa para marcas e fazendo bastante coisas, tentando achar a minha nova casa e continuar a servir meu propósito. Mas nessa jornada ficou bem difícil assistir a competições. Eu senti muita falta dessa vida porque eu ainda tinha um amor grande pelo esporte. Então, nessa época chegou a chamada de voltar pelo esporte, mas do meu jeito, conectado com o meu propósito. E aí, abriu essa oportunidade de trazer uma mudança pelo Brasil, pelo esporte de esqui alpino, e trazer essas cores para esse esporte.

Continua após a publicidade

Mas houve um conflito entre você e a Federação Norueguesa envolvendo direitos de imagem. Como foi isso? É importante compartilhar que o problema, sinceramente, foi sobre mentalidade. Sobre a confederação não aceitar as diferenças entre os atletas, porque isso para mim é fundamental.  Esse conflito de direitos de imagem simplesmente é um produto do problema verdadeiro, que é essa mentalidade de tentar enfiar todo mundo numa caixa.  A gente estava lutando para a Federação Norueguesa de Esqui seguir as regras da confederação do esporte nacional, que está acima da confederação deles. Eles não estavam seguindo as regras. 

Essas regras seriam especificamente quais? Os atletas têm direito sobre a própria imagem. A opinião deles é que eles podem fazer tudo com nossa imagem, nossa assinatura e nosso nome. Você trabalha, faz muitos sacrifícios, tem 10 anos de carreira. Aí vem uma organização e cria um produto com o seu rosto, com o seu nome, e ela dita 100% como você usa seu nome e sua cara . Você pode acordar um dia e receber um e-mail da Federação informando que agora você é um embaixador de uma indústria ou marca com a qual você não está alinhado com os valores. Esse foi o conflito.

Eles implicaram com a bandeira brasileira também? Esse episódio representa bem o problema. Em 2021, caí e me machuquei. Voltei na temporada seguinte e tive um resultado muito bom, que me deixou muito orgulhoso. Depois da competição, descendo a montanha, celebrando essa conquista, coloquei a bandeira brasileira acima da minha cabeça. Tocava um samba e eu estava junto com um dos meus parceiros, os dois felizes. Publiquei esse vídeo e a Federação queria me punir, mesmo sem haver nenhuma regra proibindo a atitude. Eu não sou 100% norueguês. Sou metade norueguês, metade brasileiro. E sempre tive orgulho dessa diversidade. Se não posso representar todas as cores que carrego, ali não é o meu lugar.

Continua após a publicidade

Como aconteceu sua filiação à confederação brasileira? Eu os procurei. Queria explorar essa oportunidade de representar o Brasil, então entrei em contato e fui para São Paulo. Contei a história inteira, o que queria fazer, meus sonhos.  Minha unica exigêncai foi ter a liberdade de ser quem sou. E isso eles me deram. Hoje, tenho um time com treinadores de esqui, perparador físico, fisioterapeuta, equipe comercial.  A gente viaja o tempo inteiro junto, tentando conquistar e representar nossas cores.

Como se sente recepcionado pelos brasileiros? Com muito amor, alegria e orgulho. O fato de o Brasil agora ter um representante em novo esporte, que nem dá para ser praticado em nosso país, mostra como tudo é possível, que a gente realmente tem esse poder. 

E a reação na Noruega? Na Noruega tem várias opiniões sobre o que aconteceu. Parte da conversa é ‘nossa, ele iria representar nossas cores, a Noruega, é uma pena, eu gostaria que ele ficasse’. E o outro lado do papo é ‘olha existem vários caminhos para seguir nossos sonhos’. Isso traz uma mudança. Isso só me deixa muito feliz, porque mesmo que você não concorde com o meu jeito, minha história, como segui meus sonhos,  eu criei uma conversa muito saudável. 

Continua após a publicidade

Se houvesse alguma mudança de postura, existiria a possibilidade de você voltar a competir pela Noruega? De jeito nenhum. O Brasil é um fechamento de ciclo. Eu realmente sinto que foi escrito.

Você falou sobre como era delicado ser um brasileiro na Noruega. E como é a sensação contrária, de ser metade norueguês no Brasil? Essa dificuldade com identidade é a essência da minha história. Na minha infância, vivia tentando achar minha casa e realmente nunca senti que achei. Em todos os lugares, todas as comunidades que entrei, eu sempre me senti a criança estranha. Como esquiador, sempre viajando, tentando achar neve, as montanhas, encontrei uma comunidade de outras crianças da mesma realidade, e nesse grupo, encontrei uma grande diversidade. Foi a primeira vez que eu me senti em casa, porque todo mundo nesse grupo era um pouco estranho. Cresci na Noruega como brasileiro, e no Brasil, sou um pouco gringo. Na infância, foi bem difícil, mas, crescido, eu entendo que esse é o meu superpoder.

Se Brasil e Noruega se enfrentarem na Copa do Mundo de futebol, sua torcida fica com quem? Brasil, sem dúvidas.

https://veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/02/LUCAS-PINHEIRO-BRAATHEN-2026.jpg.jpg?quality=70&strip=info&resize=1080,565&crop=1

Fonte: veja.abril.com.br

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © 2021 Panorama Geral RJ.