Neste mês, lembramos 20 anos dos “crimes de maio”, quando mais de 500 pessoas – em sua maioria jovens negros – foram mortas em São Paulo, em operações policiais que seriam uma “resposta” aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, que aconteceram no mesmo período. Mas também celebramos o nascimento desse movimento que se tornou um dos mais importantes do país: o Mães de Maio, que busca transformar o sofrimento imensurável de perder um filho assassinado pelo Estado em luta contra a opressão, a injustiça e o racismo.
Hoje, a organização atua por justiça, reparação e acolhimento da dor de mulheres que perderam seus filhos para a violência policial em chacinas por todo o país, e também pelas próprias mães mortas diretamente pelo Estado, como Thawanna Salmázio, assassinada durante ação policial em Cidade Tiradentes, distrito localizado na Zona Leste de São Paulo, em 3 de abril deste ano. Ela deixou cinco filhos. Duas semanas depois, a policial que fez o disparo que matou Thawanna, e que estava estagiando na corporação, foi promovida a soldado.
Para além de toda a brutalidade, é preciso reconhecer o que surge a partir da organização popular moldada pela dor, mas também pela coragem e pelo companheirismo. Por isso, em homenagem ao Dia das Mães, o Pauta Pública recebeu a fundadora do movimento Mães de Maio, Débora Silva. Débora teve seu filho assassinado por policiais na chacina de maio de 2006, e a partir de então se tornou ativista pelos direitos humanos e por justiça para vítimas de violência policial e suas famílias.
Por sua luta e atuação, ela recebeu vários prêmios nacionais e internacionais como o “Dandara dos Palmares”, da prefeitura de Santos, além do prêmio Cidadã Paulistana da Câmara Municipal de São Paulo, Medalha Chico Mendes, entre outros. Confira os principais trechos da entrevista.
EP 215
As bravas: a luta das Mães de Maio – com Débora Silva
8 de maio de 2026
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Neste Dia das Mães, Pauta Pública recebe a fundadora do movimento por justiça para mortes cometidas pelo Estado
Eu queria te pedir para contar um pouco, para os ouvintes que não conhecem essa história, como começou o movimento das Mães de Maio, e também sobre o que vocês têm feito desde então.
O movimento nasce da negação de resposta de uma investigação. Não existia polícia investigar polícia. A gente começou indo para os tribunais regionais, dando os caminhos, as evidências, desmascarando o comando da Polícia Militar no estado de São Paulo sobre o COPOM [Centro de Operações da Polícia Militar] . Isso foi a ponta do iceberg: negar que o COPOM registrou as ocorrências. Depois de seis anos, eles exumam o corpo do meu filho, eu volto no DHPP [Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa] e vejo as ossadas do meu filho em cima de uma maca, o que foi doído para mim, mas aquilo também me deu um levante.
A gente avançou muito, fomos para os Estados Unidos com a Anistia Internacional. A Anistia Internacional também é uma ferramenta que a gente traz para dentro do Brasil, porque nos crimes de maio, em 2006, só tinha em Londres. E fomos avançando em vários territórios do Brasil – Rio de Janeiro, Salvador, Ceará, Espírito Santo, fazendo esse levante, a gente tinha que se organizar, organizar as mães. E a organização das mães acontece em 2016, quando a gente lança, em São Paulo, a Rede Nacional de Mães e Familiares, trazendo também as mães Guarani e Kaiowá, porque não é diferente também as perdas dos filhos delas.
Lançamos em São Paulo e aí ganhou uma proporção, segundo ano do encontro foi no Rio de Janeiro, terceiro em Salvador, aí quarto foi em Goiás, e daí por diante. A gente tem Mães de Maio do Nordeste, a gente tem Mães de Maio de Minas Gerais, elas pediram o nome, a gente cedeu, é um nome respeitado, é um nome forte.
A gente passou a ocupar também as instituições que negam o direito à vida, que negam o direito à investigação, que negam o direito da gente ter uma reparação. A gente perdeu mães porque não é fácil lutar e bater com a cara na porta. Até direito de chorar, elas não tinham, né? Com as oportunidades de cinco minutos de fala, com o microfone na mão, elas tinham que ser o grito dos filhos, mesmo que depois que falassem, elas começassem a gritar, a chorar. Quando uma mãe ganha as ruas e vai procurar o seu direito, ela não é vítima. Atacam nossos corpos, nossos corpos doem, o luto é difícil, não tem profissionais que façam um tratamento adequado para a mãe preta, pobre, moradora de favela e de periferia, não estão preparados para isso.
Então, o único caminho que a gente teve é de ensinar as mães o caminho da luta, engrossar a voz, gritando que o Estado é assassino. Porque quando as Mães de Maio saem às ruas, elas saem sozinhas. Depois é que elas foram ganhando adeptos. Mas parecia que a gente não existia. Mas, o Brasil é produtor de mães de maio. Então, as autoridades precisavam nos ouvir. E já que não queriam nos ouvir, a gente resolveu parir o novo Brasil e uma nova sociedade, entrando para as entranhas do sistema e apontando onde estava o nó.
E eu me lembro que em uma das nossas conversas você me falou uma coisa que ficou gravada para sempre na minha cabeça, que é justamente como as mães transformam o luto em luta, como as mães transformam sua dor em luta. E aí você falou isso, de chamar essas mães e ensinar esse caminho de luta. Eu queria te perguntar, como foi isso de aprender e de ensinar esse caminho de luta para essas mães?
Quando uma mãe perde um filho, a gente vai ao encontro dela e dá um abraço, e quando a gente dá um abraço, ela acorda para a vida. E ela vai seguindo conosco. E elas vão pelo mesmo caminho, olhando os exemplos, se inspirando. E você veja que eu encontrei uma mãe no evento da Defensoria [Pública] no mês passado e ela falou: “eu luto, a gente luta lá em Bauru, mas eu me inspirei nas Mães de Maio”. Isso é muito gratificante. Tudo o que nós fazemos, a gente serve de exemplo para outras.
E é o movimento que mais cresce no Brasil, é o movimento de mães. Pelo fato de eu ter um tom de voz agudo, uma mulher que mete o pé na porta, as mães aprenderam a gritar com as Mães de Maio também. Não tem outro caminho para atingir o sistema a não ser gritar, ocupar e resistir. E quando a gente fala ocupar, é as ruas, é a frente dessas instituições, escrachando. Não é “sim, senhor”, é “não senhor”. Para eles respeitarem a dor do luto.
Teve vitória, teve várias vitórias. Estamos deixando cada vez mais portas abertas para elas entrarem. E elas têm dificuldade, porque elas precisam desenvolver a cultura do enfrentamento. Mas elas conseguem exigir política pública, e desde o momento que elas consegue exigir a política pública – que não é pedir, que a gente não quer esmola, a gente quer o direito – então a gente consegue fazer com que esse coro tome outro rumo, que é o rumo que o Mães de Maio sempre almejou.
E precisa muito de força mesmo, né, Débora? Principalmente para ter essa postura que você colocou de enfrentamento, nós mulheres já não estamos muito acostumadas a fazer enfrentamento, e quando você fala em enfrentamento do Estado, da polícia, de olhar na cara de um policial ou de um agente do Estado e falar: “não, você vai olhar pra esse caso, sim”, isso exige, de fato, muita coragem. E eu imagino que você também não deva agradar muitas pessoas, deve ter muita gente que tem medo de você. Você falou que eles falam quando chegam as mães, as bravas…
É, as bravas, chegou as bravas. Porque a gente fala muito que nós somos ingovernáveis, porque a gente não tem conchavo. Então, a gente não fala “bom dia”, a gente fala “rebeldia”, porque a gente é rebelde. E você disse uma palavra chave, Andrea: coragem. A única coisa que a gente não dá pra elas é coragem, porque a coragem está dentro de cada um. E essa coragem a gente teve que ter quando a gente perdeu o nosso filho. Porque o medo que a gente tinha era de perder eles, e desde o momento que se perde o filho, a gente não tem tempo de ter medo.
E a gente não teve tempo de ter medo, porque a gente não teve tempo de ter luto. Aí que está a raiz da luta. Vinte anos que não teve tempo de ter luto. Só de luta. O tempo do luto não existe, porque o Estado não deixa, ele não deixa a gente dormir. As mães não dormem quando saem, as mães não dormem quando estão trabalhando, as mães não veem a hora de chegar em casa. É aquela agonia toda: se está num divertimento, num baile, as mães não dormem enquanto eles não chegam, o Estado não deixa, e a gente precisa dormir porque a gente está com a sociedade adoecida.
Então, esse genocídio também aparece com a negação de uma moradia digna, com o racismo climático, com a educação também. As mulheres que vão salvar o Brasil, as mulheres que vão parir uma nova América Latina, porque o feminismo não mata, ele nunca vai matar. A gente cansou de ir atrás dos homens, queremos decidir por nós. E a gente tomava tiro, porrada e bomba, e a gente falou: “não, ninguém entra mais na nossa frente, se quiser venha do nosso lado, porque agora é a vez das mães”.
Nós estamos decididas a parir uma nova sociedade, nós estamos determinadas. Cada dia que passa é um aprendizado a mais. É o poder da transformação e não se acovardar. Essa é a palavra chave: não se acovardar. Porque quando tomba um, dez, vinte se levantam. Então a gente vai continuar com essa política do enfrentamento, do escracho. A nossa praia é escrachar porque a gente tem que envergonhar quem está por trás da caneta, quem está sentado no trono, mostrar que eles estão sendo observados.