<p><b>Parafraseando o mestre Lamego</b>, &eacute; um texto que o memorialista Antonio Alvarez Parada escreveu em 1985, uma reflexão profunda sobre Maca&eacute; marcada pela mem&oacute;ria, pela inquietação e pelo sentimento de pertencimento. </p><p>Quarenta e um anos depois, em pleno os 213 anos de nosso município, suas palavras continuam encontrando eco no presente. Em meio &agrave;s profundas transformações vividas por Maca&eacute;, algumas das perguntas que Parada lançou ao seu tempo permanecem atuais e nos convidam a olhar novamente para a cidade que fomos, para aquela que nos tornamos e, sobretudo, para a Maca&eacute; que queremos construir. A seguir o texto na íntegra:</p><p>"O grande historiador campista que foi Alberto Lamego, em capítulo de sua obra-prima intitulada ‘A Terra Goytacá’, relata o esplendor e lamenta a decadência de seus conterrâneos. Em todos estes anos que me dedico a pesquisar o passado de minha amada Maca&eacute;, chego &agrave; triste conclusão de que o desmantelamento social atingiu não s&oacute; a Campos, mas a todo o Estado do Rio de Janeiro. </p><p>Esta terra em que nasci já não &eacute; a mesma. Não sei se por descuido político-administrativo, se por desinteresse de n&oacute;s macaenses, ou at&eacute; mesmo se por praga, culpa de Mota Coqueiro. O fato &eacute; que no passado Maca&eacute; foi mais reluzente e pr&oacute;spera. </p><p>Hoje temos petr&oacute;leo, aeroporto, novos bairros, muitos hot&eacute;is, a cidade cheia de estrangeiros. Parece que o tão desejado progresso com o qual os macaenses do passado tanto sonharam chegou. E eu fico a me perguntar, onde os macaenses? </p><p>Onde os destemidos índios goitacá, primitivos habitantes dessa região, guerreiros natos, sempre dispostos a defender sobre qualquer custo o solo em que nasceram? </p><p>Onde os jesuítas e suas batinas negras, nossos primeiros professores, com o col&eacute;gio no final da rua Doutor T&eacute;lio Barreto, ou melhor, Rua do Col&eacute;gio, sua primeira denominação? </p><p>E aqueles padres, como Jos&eacute; Ant&ocirc;nio de Souza, Francisco da Madre de Deus Cunha, Joaquim da Fonseca Cruz, Frederico Masson e tantos outros que semearam no coração do macaense o espírito cristão? </p><p>Onde os Ferreira Rabelo, pioneiros que muito contribuíram para a elevação de Maca&eacute; &agrave; vila, 1813, doando terras e construindo as suas expensas os estabelecimentos públicos necessários para tal feito? </p><p>Onde os descendentes daqueles africanos escravizados que muito trabalharam por esta terra e por praga receberam como tratamento desumano, o que horrorizou o cientista inglês Charles Darwin, quando esteve aqui em 1832? </p><p>Onde o valente Carukango, injustiçado Mota Coqueiro, o terrível Pires da Bertioga, o infeliz Chico Diogo, figuras quase lendárias cujas hist&oacute;rias fascinantes nos eram contadas na infância? </p><p>Onde a fidalguia dos Carneiro da Silva, com seus barões, patriarcas, recebendo majestades e altezas, promovendo o desenvolvimento da região, fazendo de Quissamã um verdadeiro polo irradiador de progresso e grandeza? </p><p>Onde a honestidade dos Pereira de Souza, fazendeiros libados, família exemplar, berço daquele que os macaenses conheceram por Xiton e que viria a ocupar o posto supremo da nação? </p><p>Onde o espírito empreendedor dos lusitanos Araújos, grandes negociantes nessa cidade, o Visconde e sua bela esposa, o suntuoso Solar de Monte Elísio e os memoráveis bailes com a presença da alta sociedade imperial? </p><p>Onde o fausto dos Gavinhos, com suas mulheres cobertas de joias, seus neg&oacute;cios obscuros, senhores absolutos na região serrana, sendo os responsáveis pelo fortalecimento da indústria cafeeira no município e pelo assentamento de dezenas de famílias imigrantes? </p><p>Onde as famílias desses imigrantes portugueses, libaneses, suíços, italianos, chineses e espanh&oacute;is que ajudaram a construir essa cidade, a exemplo do Barão da P&oacute;voa do Varzim, que aqui implantou o serviço de transporte urbano atrav&eacute;s de bondes; Manuel Guilherme Taboada, construtor do importante Cine-Teatro Taboada, que por d&eacute;cadas divertiu e trouxe cultura aos macaenses. </p><p>Onde os homens públicos valorosos que nada recebiam pelos serviços prestados, a exemplo daqueles vereadores que com recursos particulares compraram a mata do Atalaia, garantindo &agrave; população uma água saudável; prefeitos como o Coronel Sizenando, que fez Maca&eacute; ingressar de fato no s&eacute;culo XX, remodelando a cidade, ampliando o pr&eacute;dio da prefeitura, calçando a Rui Barbosa, construindo as principais galerias de águas pluviais e esgoto, inaugurando estradas e saneamento brejos e pântanos? </p><p>Onde Washington Luís, Casimiro de Abreu, Benedicto Lacerda, Hndenburgo Olive e tantos outros filhos ilustres dessa terra que encheram de orgulho o peito de seus irmãos? </p><p>Onde Minha Imbetiba – minha e de Detinha – com suas águas gostosas, sua areia quente, seu grande Hotel Balneário, hoje tão depredado, mas que quando de propriedade do campista Lamego foi tão bem frequentado? </p><p>Chega! Acordai, macaenses! </p><p>Tomai vossos lugares e mostrai que ainda corre em nossas veias o sangue precioso daquela gente trabalhadora, obstinada e com coração repleto de esperança e f&eacute;, dos quais somos herdeiros legítimos. </p><p>Maca&eacute;, 15 de março de 1985, Ant&ocirc;nio Alvarez Parada."</p><p>Passados 213 anos de sua emancipação política, Maca&eacute; talvez precise novamente parar e perguntar onde estão os macaenses. Não para procurar uma identidade perdida em um passado idealizado, nem para acreditar que a cidade de ontem foi necessariamente melhor que a de hoje, mas para reconhecer aquilo que o progresso não pode apagar: as mem&oacute;rias, os territ&oacute;rios, os saberes, as paisagens e as pessoas que fizeram e continuam fazendo Maca&eacute; existir.</p><p>Parada escreveu em 1985, quando o petr&oacute;leo ainda começava a redesenhar profundamente os destinos do município.</p><p> Hoje, diante de uma Maca&eacute; muito maior, mais diversa, mais urbana e marcada por profundas transformações econ&ocirc;micas, ambientais e sociais, suas perguntas ganham novos sentidos. </p><p>Onde estão os povos originários? </p><p>Onde estão as hist&oacute;rias das populações negras que construíram esta terra? </p><p>Onde estão os trabalhadores, pescadores, comunidades tradicionais, mulheres, migrantes e tantos outros sujeitos que compõem a cidade contemporânea? </p><p>Onde está a mem&oacute;ria dos lugares que desapareceram ou foram transformados?</p><p>Talvez a resposta esteja justamente em compreender que o macaense não &eacute; uma figura congelada no passado. Ele se refaz continuamente, naqueles que nasceram aqui, nos que chegaram e criaram raízes, nos que partiram e continuam carregando Maca&eacute; consigo e, sobretudo, nos que reconhecem neste territ&oacute;rio uma hist&oacute;ria que merece ser conhecida, preservada e contada.</p><p>Aos 213 anos, a pergunta de Antonio Alvarez Parada permanece. </p><p>Mas talvez seja necessário acrescentar outra: Que Maca&eacute; queremos entregar &agrave;s pr&oacute;ximas gerações?</p><p>Acordar, hoje, não significa voltar ao passado. Significa conhecê-lo para que o futuro não seja construído sobre o esquecimento.</p><p><br></p><p>Por: <b>Grazielle Heguedusch, Rúben Pereira e Janne Lis</b></p><p> </p>

Fonte: www.rjnewsnoticias.com.br

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