O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou 63 trechos do projeto aprovado pelo Congresso que altera as regras do licenciamento ambiental. O governo anunciou a decisão nesta sexta-feira, 8, depois de reuniões com ministros e técnicos do setor. As informações são do g1.
O restante da nova legislação, que soma cerca de 400 dispositivos, foi sancionado. Além disso, o Executivo pretende apresentar um novo projeto de lei em regime de urgência, com uma versão alternativa para 37 vetos.
Entre os pontos barrados por Lula estão trechos que autorizariam licenciamento simplificado para obras com potencial de risco, como barragens e empreendimentos em áreas de floresta nativa.
Segundo Miriam Belchior, secretária-executiva da Casa Civil, o petista buscou preservar quatro diretrizes: garantir a integridade do licenciamento, dar segurança jurídica a investidores, proteger comunidades indígenas e acelerar os processos sem comprometer sua qualidade.
O Planalto optou por manter a Licença Ambiental Especial (LAE). Contudo, vetou o trecho que autorizava um licenciamento monofásico. Na prática, isso impediria a análise por etapas e exigiria gastos antecipados antes de qualquer viabilidade ambiental.
Autoridades responsáveis finalizaram a medida provisória da LAE e devem publicá-la em breve. Ela permitirá a autorização de obras consideradas estratégicas com mais agilidade — mesmo sem avaliação prévia de impacto ambiental — desde que o governo federal assim classifique os projetos.
A ministra Marina Silva negou que a proposta implique “licenciamento automático” e garantiu o cumprimento de todas as etapas técnicas. Para ela, o objetivo é “agilidade sem perda de qualidade”, em diálogo com o Congresso e com as comunidades afetadas.
Entre os vetos de maior impacto está a tentativa de nacionalizar o modelo de Licença por Adesão e Compromisso (LAC), que já funciona em alguns Estados. Esse sistema permite que empresas declarem por conta própria o baixo impacto ambiental de seus empreendimentos e recebam licença quase automática.
O governo vetou a ampliação da LAC para atividades de médio impacto, como mineradoras e projetos agroindustriais, por entender que o modelo dispensa análise técnica adequada e favorece a proliferação de obras com alto risco.
A nova proposta do Executivo deverá restringir o uso da LAC a empreendimentos com impacto reduzido, além de impor critérios mais rígidos de validação das autodeclarações feitas pelas empresas.
Lula também vetou artigos que retiravam a proteção especial da Mata Atlântica. O bioma, que hoje conta com apenas 24% de sua vegetação original, é protegido pela Constituição. O texto aprovado pelo Congresso abriria espaço para desmatamento legalizado em áreas sensíveis.
Outro veto relevante protegeu o papel técnico dos órgãos que gerem Unidades de Conservação. O projeto do Congresso tirava deles o poder vinculante de vetar ou aprovar obras em zonas de amortecimento.
O governo manteve a exigência de pareceres técnicos obrigatórios, reforçando a necessidade de avaliação especializada para garantir a preservação desses territórios.
A proposta aprovada por deputados e senadores limitava a consulta a indígenas e quilombolas apenas às áreas já reconhecidas formalmente pela Funaie pela Fundação Palmares. Lula vetou esse ponto, argumentando que ele excluía povos em processo de reconhecimento e contrariava a Constituição.
A nova proposta manterá o direito à consulta prévia e reforçará a participação social em projetos que impactem territórios tradicionais.
Outro trecho vetado previa a dispensa automática de licenciamento para propriedades com Cadastro Ambiental Rural (CAR) pendente de análise. O Executivo decidiu manter a exigência de validação prévia do CAR como pré-condição para qualquer dispensa.
Com a sanção parcial da lei, cabe agora ao Congresso Nacional decidir se mantém ou derruba os vetos presidenciais. A data da sessão ainda não foi marcada.
Enquanto isso, o governo se antecipa com o envio de uma nova proposta, que pretende corrigir lacunas deixadas pelos vetos e estabelecer critérios mais rigorosos para o licenciamento ambiental no país.